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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A poesia cá dentro de mim...

O poema



Dentro de mim dorme um poema
Capaz de exprimir minha alma toda.
Sinto-o vago como o som ou vento
Embora já esculpido inteiro para sempre.


Sem estrofes, versos ou palavras.
Nem com sonhar ainda é.
Mera emoção dele, esfumado apenas
Bruma feliz em volta do pensar.


Dia e noite meu mistério
Sonho-o, leio-o, de novo soletro,
E sempre a fímbria das palavras me aborda
Como adejando sua vaga integridade.


Sei que nunca será escrito.
Nem sei, não sei sequer que é.
Mas a sonhá-lo sinto-me feliz,
E alegria, mesmo falsa, é alegria.

Fernando pessoa
(Tradução de José Blanc de Portugal)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Duas Casas


Sábado eu fico aqui, domingo eu me mando pra lá
No natal eu passo mal, do ano-novo vou me livrar
Lá não tem presente
Aqui não tem assunto
Voces não tem futuro, sinto muito, quem mandou dormir junto
Qual é a minha casa?
Onde eu vou morar?
Quem me dá abrigo?
Quem vai me escutar?
Sábado eu fico aqui, domingo eu me mando pra lá
Entre duas casas minha história nunca vai começar
Lá não tem meus livros
Aqui não tem respeito
Voces não tem mais jeito, sinto muinto, quem mandou dormir junto
Paula Toller / George Israel (kid abelha)

domingo, 26 de setembro de 2010






Se cada dia cai

Se cada dia cai, dentro de cada noite,

há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda

Acontece



Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.

Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.

Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.

Que entrevista espaçosa e especial!

Pablo Neruda 

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Florbela Espanca bateu em minha porta, e eu? eu abri...



Se tu viesses ver-me...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


Florbela Espanca










Eu ...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca

sábado, 17 de julho de 2010

O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu...

Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu...








Fontes: Paralamas/Mutantes
Imagem:http://misteri0s.blogs.sapo.pt/arquivo/2004_12.html

terça-feira, 6 de julho de 2010

Frida Kahlo


Eu quero ser Frida Kahlo
Quero olhar-me no espelho
e ver que levo dentro
o pincel para pintar meu bigode

Eu quero ser Frida Kahlo
Quero abrir as janelas do meu corpo
E pintar com todas as cores da carne

Eu quero ser Frida Kahlo
E suportar o peso da cor negra
que pinta a dor(...)


DE CONCHA ROUSIA

segunda-feira, 14 de junho de 2010

domingo, 13 de junho de 2010

ter ou não ter namorado?




Quem não tem namorado
é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil por que namorado de verdade é muito raro.
Necessita de adivinhação, de pele, de saliva,
lágrimas, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil .
Mas namorado é mesmo difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito,
mas ser aquele a quem quer se proteger
e quando se chega ao lado dele a gente treme,
sua frio e quase desmaia, pedindo proteção.
A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira,
basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem amor,
é quem não sabe o gosto de namorar.
Se você tem três pretendentes , dois paqueras,
um envolvimento e dois amantes,
mesmo assim pode não ter um namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva,
cinema sessão das duas, medo do pai,
sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho,
quem se acaricia sem vontade de virar sorvete
ou lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade.
Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida,
escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas,
do carinho escondido na hora em que passa o filme,
de flor catada no muro e entregue de repente,
de poesia de Fernando Pessoa,
Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar,
de gargalhadas quando fala junto ou descobre a meia rasgada,
de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia
ou mesmo metrô, nuvem, cavalo alado,
tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado,
fazer sesta abraçado, fazer compras junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor,
nem ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele,
abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e do amado e sai com ela para parques, fliperama,
beira d´agua, show de Milton Nascimento,
bosques enluarados, ruas de sonho ou musical do metrô.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele,
quem não dedica livros, quem não recorta artigos,
quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado.
Não tem namorado quem ama sem gostar,
quem gosta sem curtir, quem curte sem se aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto
de ser lembrado de repente no fim de semana,
de madrugada ou no meio dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar,
quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações,
quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem não fala sozinho,
não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre
e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos,
ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternuras
escove a alma com leves fricções de esperança.
De alma escovada e coração estouvado,
saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui
e sorria lírios para quem passar debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos
e beba licor de conto de fadas.
Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta
e do céu descesse uma névoa de borboletas,
cada qual trazendo uma pérola falante
a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu
aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar
e de repente começar a fazer sentido."

Artur da Távola

Esta poesia também é muitas vezes atribuída ao poeta Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 25 de maio de 2010

Enigma...

Quem consegue decifrar?
Quem aqui não quer estar?

De um lado é doce, do mesmo lado nem tanto...
Sorriso de mistério e da sagacidade um convite há adentrar;
Como companheiros nesse caminho:
A insensatez e a racionalidade a se exacerbar.
Enquanto estou lá reconheço-me no espelho:
Sinceridade, bom humor, espiritualidade e humanidade a se espalhar,
Faz com paz de jah
eu ver o que é novo e rever o que é velho .

Quem consegue decifrar?
Quem aqui não quer estar?

Faz pulsar ainda mais forte o meu questionar
Sobre o que penso e sinto,
O que é certo, definido, já posto, vem embaralhar;
Embriaga feito vinho tinto.
Lugar que envolve ... nela dá vontade de estacionar,
Parar, pra um pouco descansar ou se aventurar;
No mesmo instante sinto que ficar não devo,
Pois não sei se ela existe mesmo quando a vejo.
E me pergunto por quanto tempo devo ficar?
Que lugar é esse?
Fácil de adjetivar, e tão difícil de conceituar, substantivar?
Não sei, só sei que já a vi por ai.
Se você souber, ela bem definir,
Me avise eu gostaria de descobrir,
Pra assim saber por onde ir...
E aí? Então vai me contar
Como é ai estar?!
por:



quarta-feira, 14 de abril de 2010

quinta-feira, 18 de junho de 2009

domingo, 7 de junho de 2009

O vampiro e a fada

Na minha mansão em noites de luar
Vivo a vagar
Vago por dentro
Conto as horas conto os dias
Vampiro que sou voou sereno
A lua e tão intima para mim, mas me afasta de você,
e o sol um loiro que nem mesmo conheço
As pessoas dizem que minha lenda não consegue falar de amor
Mas eu posso te amar sim basta que eu te sinta, basta eu te encontrar.
A lua é tão íntima pra mim, mas me afasta de você
E o sol um loiro q nem mesmo conheço
No jardim da minha mansão,
Tu es a mais linda fada
E ao te ver esqueço do tempo e lembro quando não te vejo
Hoje mesmo enlouquecido sairei em pleno sol
Para beijar-te os lábios e olhar bem nos teus olhos
Dormirei sono profundo pra não acordar sonhando
Lembrarei que tu es fada e eu apenas um vampiro
Fecharei então meus olhos pra não ver teu rosto em pranto
Morrerei bem nos teus braços pelo chão ensolarado
Então guardarei nos lábios o sobejo do teu beijo
Para eternamente nunca ter que te esquecer um dia
E eu não vivi por sangue nem por susto assombrosos
Mas foi por você que vivi
E o sorriso dos teus olhos

Juliano Cardoso

Hermeticae Rosae Crucis

Caminhe
Não olhais pra frente
Olhais,pois, pra si mesmo
E Verás teu destino onde sempre esteve

Caminhe
Os próximos passos são sombrios
Mas não conheceis nem sabeis sobre
Silenciai
e caminhe rumo ao desconhecido

Caminhe
A Luz esta a tua volta,
e dentro de ti Descobri-la
pois e sabereis
Conheceis a verdade
Caminhai de olhos vendados

Caminhe
Contemplai a tua face
E fazei dela tua guia
E assim conhecerás Deus e o Mundo

Caminhe
Meditai sobre te mesmo
E assim meditareis sobre Deus
Lapidai a tua ignorância

Caminhe
Conheceis os mistérios
E silenciará diante dos tolos
E fará de teu silencio o caminho

Caminhe
E chegarás ao ponto de luz
E dele você olhara pra cima e dizeis:
“Falta muito ainda”.
Não desanime

Caminhe

Mago Hirus

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sou um poço que esconde águas cristalinas,
mas para aproximar-se dele
exijo entrega, cumplicidade, amor.

Luis Costa
Quando olho no espelho
encontro cicatrizes que a vida fez.
Algumas são profundas na alma.
Outras deixaram marcas quase impercebíveis.

Quando fecho os olhos diante do espelho
percebo lágrimas de alegria percorrerem
vales e canais, que conduzem a momentos
de intensa felicidade.

Quando afasto-me do espelho
tenho a certeza que continuo
sendo o mesmo de sempre:
um ser humano capaz de se encontrar
em suas mais profundas contradições e possibilidades.

Luís Costa
Sou
um desejo incontido,
um sonho quimérico,
um (des)concerto de ideais.
Sou
uma voz meiga e forte,
um poço de indecisões,
a incógnita necessária.
Sou
uma visão paranóica,
uma reminiscência do presente,
um vulto(in)reconhecível.
Sou
uma definição incompleta,
um vaso irretocável,
uma fuga premeditada.

Luís Costa

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A metafísica do corpo


A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e essências
além da simples carne e simples unhas

Em cada silêncio do corpo identifica-se
a linha do sentido universal
que à forma breve e transitiva imprime
a solene marca dos deuses
e do sonho.


Entre folhas, surpreende-se
na última ninfa
o que na mulher ainda é ramo e orvalho
e, mais que natureza, pensamento

da unidade inicial do mundo:
mulher planta brisa mar,
o ser telúrico, espontâneo,
como se um galho fosse da infinita
árvore que condensa
o mel, o sol, o sal, o sopro acre da vida.


De ênfase e tremor banha-se a vista
ante a luminosa nádega opalescente,
a coxa, o sacro ventre, prometido
ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo
resume de outra vida, mais florente,
em que todos fomos terra, seiva e amor.


Eis que se revela o ser, na transparência
do invólucro perfeito.


Carlos Drummond